Marcadas pra morrer. Enquanto a prefeitura
segue no antropocentrismo, parte da coletividade rompe com isso e
protege as árvores. Foto: Cíntia Barenho/CEA
Quase quatro décadas após gesto pioneiro, manifestantes voltam a subir em árvores, para que “desenvolvimento” não signifique alienação e aridez
Por Elenita Malta Pereira*
As árvores de Porto Alegre
andam tristes. Com o aumento da frota de automóveis e a obtenção de
verbas federais, associada à Copa do Mundo de 2014, a prefeitura iniciou
uma série de obras viárias: construção de passagens subterrâneas,
duplicação e ampliação de avenidas. Por isso, centenas de árvores estão
marcadas para morrer, em diferentes bairros. Algumas já começaram a ser
cortadas, o que vem gerando intensos protestos de ecologistas, moradores
e amantes das árvores em geral.
Na Praça Júlio Mesquita, em frente à Usina do Gasômetro, catorze tipuanas (Tipuana Tipu)
sangraram pela ação de moto-serras de funcionários da Secretaria
Municipal de Obras e Viação (Smov). O corte, que ocorreu sem qualquer
aviso ou consulta popular, surpreendeu os moradores e quem passava pelo
local na manhã de quarta-feira (06/02/2013). A justificativa da
administração municipal foi que as árvores precisavam ser removidas para
a duplicação da Avenida Edvaldo Pereira Paiva, uma das obras em
andamento para a Copa do Mundo. Segundo a prefeitura, essas obras
contribuirão para odesenvolvimento de Porto Alegre.
A operação teve licença
ambiental liberada pela Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Smam) e
prevê compensação através do plantio de 400 novas mudas em outros pontos
da cidade. Segundo a prefeitura, após a conclusão das obras viárias,
será desenvolvido um projeto de arborização para a Edvaldo Pereira Paiva
e toda a orla do Rio Guaíba será remodelada.
Subir nas árvores, ontem e hoje
118 árvores foram marcadas
previamente para o corte com a letra “C”, porém, quando os funcionários
cortavam a 14ª tipuana, por volta de 11h30 da manhã, ocorreu algo não
planejado pela administração municipal: jovens subiram nas árvores para
impedir a derrubada. E conseguiram, pelo menos temporariamente.
Nem os cortes de árvores,
para abrir espaço a obras viárias, nem subir nas plantaspara impedi-los,
são novidades em Porto Alegre. Essa mesma estratégia foi utilizada, há
38 anos, por Carlos Alberto Dayrell, para evitar o corte de (também)
tipuanas, que estariam atrapalhando a construção de um viaduto, na
Avenida João Pessoa, no centro da cidade. Em 25/02/1975, cerca de 10h da
manhã, a caminho de fazer sua matrícula na Escola de Engenharia da
UFRGS, Dayrell percebeu que algumas pessoas apenas observavam o corte
das árvores. Indignado, resolveu subir na 7ª tipuana a ser derrubada.
Ele era sócio da Agapan (Associação Gaúcha de Proteção ao Ambiente
Natural, fundada em 1971). Em uma das reuniões da entidade, o ecologista
José Lutzenberger conclamara os jovens a subirem nas árvores para
defendê-las. Quando viu a derrubada, Dayrell não teve dúvidas:
aproveitou a própria escada da Smov (utilizada para cortar os galhos)
para subir na tipuana. O episódio teve repercussão nacional e deu
visibilidade às causas ecológicas defendidas pela Agapan e por
Lutzenberger.
Declarações infelizes
O interessante é que a
condução de obras de mobilidade urbana não mudou muito em Porto Alegre,
apesar dos dois episódios terem ocorrido em contextos bem distintos. Em
ambos os casos, a população não foi consultada ou, pelo menos, avisada
do corte das árvores. Embora tenham passado quase 40 anos daquele tempo,
quando vivíamos uma ditadura militar, a filosofia que rege a
administração municipal – e também a federal – permanece a mesma: a
primazia do desenvolvimento econômico sobre a preservação da natureza.
Os projetos não preveem nem tentam contornar a presença de árvores –
plantadas há décadas – que fazem parte do cotidiano dos moradores da
cidade.
Para piorar a situação, o
prefeito de Porto Alegre, José Fortunati, emitiu notas na imprensa
gaúcha que acirraram ainda mais os ânimos dos movimentos sociais contra a
atitude da prefeitura. Fortunati disse que “as pessoas não utilizam
estas árvores no Gasômetro”, e que a o alargamento da avenida é
necessário, porque “existe um gargalo no trânsito e o monóxido de
carbono liberado no ar diariamente é muito grande”.
Essas declarações foram, no
mínimo, contraditórias. Se o fluxo de veículos no local é intenso e
libera alta concentração de gases poluentes, as árvores do Gasômetro são
extremamente úteis. A afirmação de que não eram utilizadas gerou
inúmeros comentários irônicos, charges e foto-montagens no Facebook.
Centenas de pessoas manifestaram-se, indignadas com o que seria a “falta
de uso”. Afinal moradores e turistas costumam frequentar o local em
seus momentos de lazer. Muitas famílias e grupos de amigos tomam
chimarrão, fazem piquenique e até churrasco, ou simplesmente ficam na
sombra das tipuanas.
Além disso, todos por ali respiravam o oxigênio
produzido por aquelas árvores.
Se o prefeito e secretário de meio ambiente não cuidam, a coletividade cuida #ecologia. Foto: CíntiaBarenho/CEA
Por uma copa com copas
Movimentos sociais de
diversas ONGs, coletivos e simpatizantes de causas ambientais
organizaram, através das redes sociais, um manifesto para o dia seguinte
ao dos cortes (07/02/2013), na frente da Usina do Gasômetro. Convocadas
às pressas, cerca de 500 pessoas compareceram ao evento. O sentimento
geral era de indignação e revolta, tanto pelo que consideravam crime
ambiental, quanto pelas declarações do prefeito.
Para mostrar que a população
utilizava as árvores, jovens e crianças realizaram acrobacias,
pendurando-se em faixas de tecido amarradas numa velha tipuana que
escapou da moto-serra.
Quando já havia um bom
público no local, por volta das 18h30, os manifestantes começaram a
colocar galhos e troncos das árvores cortadas no meio da avenida.
Interrompendo o trânsito (a mobilidade urbana, que foi a causa da
derrubada), queriam garantir visibilidade ao protesto, e também
sensibilizar a população para a necessidade de preservar as árvores
locais.
A rua ficou tomada pelos
galhos das árvores e pelos manifestantes, que portavam banners
relacionando a Copa do Mundo com o corte das copas das árvores.
Muitas pessoas comentaram,
durante o manifesto, que um evento tão breve como a Copa do Mundo (em
Porto Alegre, serão apenas quatro jogos) não poderia justificar a
derrubada de árvores que deviam ter cerca de 50 anos. Moradores locais
acreditam que as tipuanas tenham sido plantadas nas décadas de 1960-70 e
que, mesmo sendo exóticas, tornavam a paisagem bela e agradável. Para
essas pessoas, as árvores eram muito úteis.
Outro ponto comentado foi o
plantio para compensar os cortes. Mesmo que o número de mudas (400) seja
bem maior do que as árvores que a serem derrubadas (115), quem irá
fiscalizar o crescimento e o regadio? Além disso, as mudas levarão
décadas para ficar do mesmo tamanho das árvores cortadas, portanto a
medida não seria satisfatória em termos de compensação ambiental.
Também chamou a atenção de
muitos o fato de as árvores estarem literalmente sangrando. No local do
corte, os troncos apresentavam uma espécie de goma ou resina vermelha. A
substância vermelha é uma seiva da casca da tipuana, como se fosse um
suor do caule. Ao entrar em contato com o ar, a seiva endurece e fica
com aparência de uma cera de vela derretida. A visão da seiva endurecida
conferiu maior dramaticidade ao protesto. Seres vivos, assim como nós,
humanos, as tipuanas também sangram ao serem feridas.
Por volta das 20h, parte dos
manifestantes continuou o protesto à frente da prefeitura municipal.
Portando galhos das árvores cortadas, tal qual soldados o bosque de
Birnam, em Macbeth, eles caminhavam sob o olhar curioso dos
moradores do centro, e entoavam o lema da tarde “Queremos árvores!”.
Felizmente, não houve confronto com a polícia, como no episódio de 1975,
e no caso recente do Tatu-Bola, símbolo da Copa, cujo esvaziamento
gerou violência por parte de alguns policiais.
Árvores, pessoas e desenvolvimento
Devido aos protestos, a
prefeitura resolveu suspender temporariamente os cortes. De acordo com o
secretário do meio-ambiente, Luiz Fernando Záchia, é quase impossível
que sejam suspensos em definitivo. O próprio prefeito reconheceu que
houve “problemas de comunicação” no episódio. No entanto, os
ambientalistas seguirão lutando pela manutenção das árvores.
Esses acontecimentos em Porto
Alegre indicam a necessidade de profundas reflexões. A primeira é sobre
o modelo de desenvolvimento vigente no Brasil. A isenção de IPI, que
incentivou a compra de milhões de carros em todo o país, aqueceu o
consumo interno e beneficiou as grandes montadoras, mas trouxe sérios
problemas estruturais às grandes cidades, com a necessidade de obras
viárias capazes de suportar o aumento do fluxo. No entanto, para alargar
avenidas e construir novos estacionamentos, não têm sido poupados
parques, praças e árvores. O brasileiro realizou o sonho de comprar o
carro, mas dirigir tornou-se um tormento, em meio a um tráfego que pode
congestionar a qualquer horário do dia, não mais só na hora do rush.
O motorista está mais estressado e o número de acidentes de trânsito só
aumenta, ano a ano. A qualidade do ar piora, pois além de mais
veículos, há menos árvores nas ruas. Será que podemos chamar isso de desenvolvimento?
Outra reflexão pertinente é
sobre o valor da natureza para os humanos, um tema muito debatido em
ética ambiental. Grosso modo, há duas correntes dominantes, uma
antropocêntrica e outra biocêntrica. A primeira defende que a natureza
só tem valor enquanto recurso, como fonte de riquezas ao homem, e por
isso ele teria direito de explorá-la com a tecnociência. A segunda
sustenta que a natureza tem valor intrínseco, como suporte para a vida
no planeta, e que nenhum dos seres vivos é mais importante que os
demais, nem mesmo o homem. Nosso modelo econômico e civilizatório optou
pela primeira corrente, por isso a utilização maior da natureza tem sido
para produzir capital.
A morte de árvores para dar
lugar a automóveis demonstra que Porto Alegre, apesar da atuação do
movimento ambientalista há mais de 40 anos, não avançou muito em termos
de conscientização ecológica. Enquanto futebol, carros e estacionamentos
forem mais importantes do que pessoas, árvores e animais, nossa
sociedade não será desenvolvida. É por isso que subir nas
árvores e lutar contra seu corte ainda é tão importante. Manifestações
como as mencionadas neste artigo, além de lembrar a importância da
natureza, são um alento em nosso mundo capitalista, onde todo produto é
sinônimo de mercadoria. Infelizmente, para alguns, dinheiro não dá em
árvore. Mas se o capitalismo se pretende tão selvagem, deveria começar
pela preservação das árvores e dos animais, em nossas selvas de pedra…
Elenita Malta Pereira é doutoranda em História na Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).
FONTE: Centro de Estudos Ambientais
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